Jornalista da Folha de S.Paulo,
mestre em história da ciência pela
PUC de São Paulo, autora dos
livros ("Quero Ser Mãe", editora
Palavra Mágica, e "Por Que a Gra-
videz Não Vem?", editora Atheneu)

Neste blog Na Web

"Quero Ser Mãe"

O livro conta histórias reais de 30 mulheres que fizeram fertilização artificial em razão de diversos problemas

"Por Que a Gravidez Não Vem?"

Esclarecimentos sobre infertilidade conjugal a partir de dúvidas de quem vive o problema

Ginecologistas

Urologistas

Acupunturistas

 Visitas  
 
Silêncio e sofrimento permeiam

a dificuldade de gravidez

Uma pesquisa realizada em Portugal revela o que muitas das que sofrem com a dificuldade de gravidez já conhecem na pele: a pressão social faz da infertilidade um problema vivido a dois, em silêncio e permeado de sofrimento.

Segundo o trabalho, o medo de exclusão social e o constrangimento em admitir que passam pelo problema são as principais razões que levam os casais a ocultar a dificuldade.

O estudo, realizado entre maio de 2004 e outubro de 2005, reuniu uma equipe multidisciplinar formada por sociólogos e geógrafos da Universidade do Minho e três médicos do Hospital da Senhora da Oliveira.

Na primeira etapa, foram analisados registros de casamentos e nascimentos ocorridos na cidade de Guimarães, entre 1995 e 1998. A partir de então foi possível identificar que 1.129 casais da região não tiveram filhos após cinco anos de casamento.

Na segunda etapa, a equipe entrevistou trinta casais que aceitaram participar da pesquisa. A conclusão dos depoimentos revelou que para estes casais infertilidade é algo de que não se fala. Apenas amigos e familiares mais próximos sabiam do problema.

Mais da metade das mulheres entrevistadas referenciaram o impacto social da infertilidade, assim como a "insensibilidade" de familiares e amigos ao problema. Em relação à vida profissional, elas confessaram não dizer ao chefe que precisavam faltar porque iriam a uma consulta com um profissional da medicina reprodutiva, por lhes faltava coragem para admitir que não ter filhos é uma fatalidade e não uma opção.

Acesso ao tratamento médico e informação sobre o assunto também foi alvo de queixas. Sete dos casais entrevistados mostraram-se decepcionados com a informação médica existente e os cuidados de saúde, concentrados apenas nos grandes centros urbanos.

Como diz minha amiga portuguesa Clara Pinto Correia, "a dor da infertilidade é mesmo universal". E os problemas que acercam também, acrescento eu. A impressão que eu tenho é que nós, brasileiras, conseguimos avançar um pouco nos últimos anos, derrubando alguns mitos e preconceitos. O próprio fórum de discussão é um exemplo disso.

Lembro-me que há sete anos, quando iniciei a coluna, as pessoas se expunham muito menos. Nunca vou me esquecer que, durante o lançamento de um dos meus livros, uma leitora do Rio chegou até o estande, montado numa livraria de um shopping, dizendo: 'tive de despistar três amigas para chegar até aqui'. Eu, ingênua, perguntei o porquê. Só então ela revelou que nenhuma das suas amigas sabia da dificuldade de gravidez que ela sofria e que seria muito constrangedor ser flagrada comprando um livro chamado 'por que a gravidez não vem'...  

Escrito por Cláudia Collucci às 16h09

Reproduzo abaixo um interessante artigo do dr. Newton Busso sobre a questão da infertilidade no âmbito da (in)Justiça brasileira. Assino embaixo.

Infertilidade e Injustiça *

Recente decisão do Tribunal de Justiça do Goiás revela como, em alguns casos, é tratado o problema da infertilidade conjugal no país. Uma paciente daquele estado, que entrou na Justiça para obter medicação gratuita fornecida pelo SUS, teve no mês passado o pedido rejeitado, contrariando direito previsto pela Constituição Federal. A alegação do desembargador é que o SUS não é obrigado a fornecer tais medicamentos por, segundo ele, não se tratar de uma doença que exige atendimento imediato.

É bom lembrar que um dos princípios básicos do SUS (Sistema Único de Saúde) determina o acesso universal dos brasileiros a exames, consultas, cirurgias e assistência farmacêutica, independente do tipo de doença que afeta o cidadão.

Se por um lado a medicina avança significativamente nesta área, oferecendo cada vez mais opções de tratamentos contra a infertilidade, o sistema público ainda engatinha, negando, dificultando ou limitando acesso às técnicas disponíveis.

Apenas para se ter uma idéia, a técnica de fertilização in vitro já possibilitou o nascimento de mais de um milhão de bebês, nos últimos 27 anos. Os casais que não tinham nenhuma possibilidade
de ter um filho, atualmente têm mais de 50% de chances, quando se oferece a eles mais de uma tentativa de tratamento.

Fica claro, então, que faltam políticas públicas de saúde para tratar a infertilidade. No Estado de São Paulo, que detém uma das maiores receitas orçamentárias do país, poucos são os hospitais que oferecem tratamentos gratuitos. Embora haja espaço para avanços, existe uma lacuna significativa entre o real e o ideal. O acesso ao tratamento necessita ser ampliado e ofertado, principalmente às camadas mais baixas, já que o custo do tratamento particular é o principal entrave ao acesso universal, gerando tais demandas judiciais.

Faz-se necessário ampliar o debate sobre o tema, uma vez que é possível oferecer tratamentos a custos mais acessíveis, beneficiando maior número de casais. Há clínicas brasileiras que já disponibilizam alternativas menos onerosas e mais de acordo com o nível de renda dos casais, obviamente, dentro dos limites éticos da medicina, das normas de vigilância sanitária e com rígidos padrões de qualidade, em termos de laboratório.

Por fim, cabe ressaltar que a infertilidade merece atenção imediata, sim. Mais do que um problema de saúde que dificulta a gestação, a infertilidade traz sérios prejuízos psicológicos, físicos e sociais.


* Newton Eduardo Busso é professor assistente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de
Misericórdia de São Paulo e um dos diretores do Projeto Beta – Medicina Reprodutiva com
Responsabilidade Social.

Escrito por Cláudia Collucci às 14h24

Caso surreal

Em meio a tanta tragédia dos últimos dias, o insólido caso da agricultora sergipana Clenilda Maria Angelino me chamou a atenção. Aos 39 anos, ela deu à luz trigêmeos em dois hospitais diferentes. Grávida de nove meses, ela começou a sentir as dores do parto por volta das 18h de terça-feira, quando foi levada para o hospital de Tobias Barreto, no interior de Aracajú. Durante o pré-natal, os exames revelaram que ela teria dois bebês do sexo masculino.

Perto das 19h, o primeiro menino nasceu de parto normal pesando 2,5 kg. O obstetra encontrou dificuldades para retirar o segundo bebê e, como o hospital da cidade não tinha estrutura para a realização de cesariana, Clenilda foi transferida para a maternidade Zacarias Júnior, no município de Lagarto, região centro-sul de Sergipe.

Ela viajou acompanhada da irmã e do recém-nascido em uma ambulância do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU). Deu entrada na maternidade às 21h. Segundo a direção da clínica, o segundo bebê nasceu às 21h15 pesando 2,8 kg, também de parto natural. Para a surpresa da equipe médica, ainda havia mais um menino, o terceiro, que nasceu pesando 2,9 kg, que também acabou nascendo de parto normal. Essa foi a 12ª gestação de Clenilda Maria, que tem seis filhos vivos.

Acompanhando essa história, fiquei me perguntando. Por que, para algumas pessoas, tudo parece acontecer de forma tão simples? Primeiro, Clenilda engravida naturalmente de trigêmeos, o que já é raro. Leva uma gravidez aparentemente normal, apesar de um pré-natal duvidoso. Afinal, como é que pode não terem visto o terceiro bebê??? Por fim, consegue levar a gravidez até o nono mês e dar à luz aos três de parto normal. Não é incrível? E todos os bebês nasceram com um bom peso, nenhum precisou de UTI neonatal (ainda bem, porque dada às circunstâncias, é bem possível que não haveria nenhuma disponível). Mãe e bebês já tiveram alta.

Para a maioria das pessoas, o inusitado dessa história foi apenas o fato de os bebês terem nascido em maternidades e municípios distintos. Mas, para nós que conhecemos a fundo esse mundo da reprodução e os riscos de uma gravidez múltipla, toda essa história, do começo ao fim, não parece surreal?

Escrito por Cláudia Collucci às 16h52

O ácido fólico e a gravidez

Acompanhei a discussão no fórum de discussão sobre o uso do ácido fólico, um complemento utilizado para prevenir más-formações do feto. Uma das leitoras levantou um alerta de que a vitamina em questão aumentaria o risco de gravidez de gêmeos, segundo havia lido numa notícia na internet. E ainda disse que o seu médico não recomendou o uso do ácido fólico porque engordaria.

As duas situações me preocuparam. Primeiro é a confiança cega em resultados de estudos publicados pela imprensa leiga. Desconfiem sempre, é a dica que dou. De preferência, busquem a fonte original. Algumas traduções contém simplificações rasteiras sobre o tema e levam invariavelmente a perigosos enganos. Outras vezes, o estudo é enviesado e não traz conclusão alguma. Ao contrário, só traz confusão.

Li com atenção o artigo ao qual a leitora se refere e, de cara, achei um absurdo o título escolhido: "ácido fólico aumenta chances de gravidez de gêmeos". No artigo, publicado no "The Lancet", cientistas da Universidade de Aberdeen, na Escócia, acompanharam 602 mulheres submetidas à fertilização in vitro e mediram seus níveis de ácido fólico no sangue. Setenta e três por cento das mulheres estudadas tomavam diariamente a dose de ácido fólico recomendada; 9% tomavam menos ou nada e cerca de 19% ingeriam mais do que o recomendado.

Os cientistas descobriram que as mulheres com altos níveis de ácido fólico no sangue tinham 52% mais chances de ter gravidez múltipla. O índice de gêmeos era 28% maior entre as mulheres com grandes quantidades de folato em seus glóbulos vermelhos.

Mas um dado fundamental não aparece no estudo: quantos embriões foram transferidos no grupo de mulheres analisadas? Parece-me óbvio que, se o número de embriões transferidos não for exatamente igual em todas elas, o estudo é uma tremenda furada porque essa é a principal razão do risco de gravidez múltipla. Não é a toa que, no mundo todo, há um movimento para se transferir o menor número de embriões possível durante a FIV, de preferência, um único embrião.

Ou seja, sem essa resposta, não há razão para acreditar nessa associação do ácido fólico com o aumento de chance de gravidez múltipla. Ainda mais quando usada a quantidade recomendada pelo médico.

A outra preocupação veio da pseudo-informação de que o ácido fólico engorda. Isso não faz o menor sentido. Respeito bastante as relações médico-paciente, mas um médico que diz uma asneira dessa a uma paciente que está tentando engravidar, merece ser denunciado ao conselho de medicina.

O ácido fólico é fundamental para evitar as má-formações fetais, especialmente importante para o correto fechamento do tubo neural nas primeiras semanas e deve ser tomado pelo menos três meses antes das tentativas de gravidez. Isso é fato. O resto é tolice.

Escrito por Cláudia Collucci às 18h33

Ansiedade aumenta o mau-hálito

Mais um motivo para a gente tentar controlar a ansiedade neste processo de tentativa de gravidez. Uma pesquisa da Unicamp mostrou que a ansiedade aumenta a produção de compostos sulfurados voláteis, que são os principais causadores do mau-hálito. O ciclo menstrual também influencia a produção desses compostos, especialmente na fase pré-menstrual, segundo o mesmo estudo.

A conclusão está na tese de doutorado desenvolvida pela cirurgiã-dentista Caroline Morini Calil, na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Unicamp. De acordo com a professora do Departamento de Ciências Fisiológicas e orientadora da tese, Fernanda Klein Marcondes, “bactérias presentes na cavidade bucal atuam sobre células descamadas e restos de alimentos, produzindo substâncias voláteis que provocam o mau-hálito.

A investigação teve apoio da Fundação de Amparo ao Ensino e à Pesquisa (Fapesp) e contou com a participação de 40 voluntários saudáveis, em perfeitas condições orais. Os voluntários foram separados em dois grupos: 20 homens e 20 mulheres. O grupo das mulheres foi analisado em três fases do ciclo menstrual: pré-menstrual, menstrual e folicular.

No laboratório, os voluntários eram submetidos a um teste que tinha por finalidade provocar ansiedade. Eles recebiam um quadro no qual estavam escritos os nomes de várias cores, diferentemente de seus significados. Por exemplo: a palavra amarelo estava escrita em azul. Em dois minutos, o voluntário deveria ler o quadro de cores, dizendo a cor em que cada palavra estava pintada. Cada erro era sinalizado por meio de uma campainha. Antes e após a aplicação deste teste, foram avaliados o nível de ansiedade e a concentração bucal de compostos sulfurados voláteis. 

O teste indutor de ansiedade aumentou a freqüência cardíaca e a pressão arterial, o que, conforme a docente, é uma resposta típica de estresse e de ansiedade. Também houve aumento na produção de compostos sulfurados voláteis, indicando que, mesmo em indivíduos saudáveis, alterações emocionais alteram a produção de compostos relacionados ao mau-hálito. 

Segundo Carolina, nestas condições, uma situação de estresse agudo, de apenas dois minutos, foi suficiente para aumentar os compostos sulfurados voláteis. "Podemos sugerir que este efeito deve ser maior numa situação normal do dia-a-dia, em que somos expostos a estímulos estressores mais duradouros e potentes”, pondera.

Achei o estudo curioso, ainda que tenha sido pesquisada uma população pequena. No mínimo, vou me lembrar disso nos momentos de ansiedade e, rapidamente, inspirar e expirar profundamente, um ótimo exercício para "abaixar um pouco a bola".

Escrito por Cláudia Collucci às 17h23